Um dos piores sofrimentos que conheço é o da privação. Imagine ser apaixonado por chocolate (se você não é fã pense em um pecado que te atormente). Um dos melhores momentos do dia pra você é saborear aquele brownie de chocolate da padaria do seu bairro. Ele está sempre lá. Você já chega sem cerimônias, sorri para o atendente e pede. Pega o garfo e se serve sem pudores ou afetações. Essa já é uma relação com uma considerável intimidade. Cada pedaço é saboreado como se fosse a primeira vez. Há uma certa cumplicidade entre você e a sua sobremesa favorita. Não há como não voltar pra casa com um sorriso quase especial no rosto. O resto dia fica mais leve sem que você perceba. No entando, por algum motivo você é privado de comer chocolate. Por uma questão de saúde ou outro motivo qualquer igualmente dramático e súbito. O brownie continua saindo do forno todos dias. A padaria fica no seu caminho diário e volta e meia, ao comprar leite e pão, vocês se esbarram. Não deu tempo ainda de esquecer o gosto, a textura crocante da casquinha, o interior macio e o cheiro. Ah, o cheiro! Quando você compartilha do seu sofrimento de estar privado do brownie da padaria com amigos todos te acham drámatico demais, está exagerando, dando muita importância à situação. “Mas é só chocolate!”. Não, não é só chocolate. É sua sobremesa predileta e agora, a contragosto, o jeito é esquecer o sabor que ela tem.

Foto por Olivia Bee.

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