“Há um ano não nos víamos, não tenho lhe dado brecha ultimamente, mas ontem à tarde, quando ele ligou para o escritório, percebeu que tinha chance.
– O que você vai fazer à noite?
– Nada, venha jantar comigo.
Meia hora antes do combinado, ele tocou a campainha com um pirex na mão.
– Fiz pra você. Torta de camarão.
Eu pus de lado.
– Vamos comer o picadinho que eu fiz. A torta eu como amanhã.
Numa sacola de plástico, trouxe três latinhas de cerveja. Peguei uma garrafa de vinho já aberta.
– Prefiro vinho, você bebe a sua cerveja.
Também trouxe Otelo, um boxer imenso que atravessou a sala e a conversa o tempo todo.
– Você se lembrava dele? Na última vez, ele era um bebezinho, está fazendo um ano.
Depois do jantar, conversamos numa boa, sobre nada.
Quando me calei e comecei a bocejar, ele se levantou dizendo:
– Volto daqui a um ano.
– Pode me ligar no natal, eu lhe disse.
Ele me xingou de filha da puta e foi embora dizendo que me ama e me amará para sempre. Eu fiz o mesmo.
Hoje passei o dia com o celular desligado. Pra ele, às vezes, o natal é no dia seguinte.”

(conto publicado em 2002, na Revista PS_SP)

Por Ivana Arruda Leite.

Foto de Ann P.

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