Sempre que a conversa cai no assunto comida, e ela sempre cai quando estou na roda, as pessoas me perguntam como faço pra cozinhar tanto em casa. Aonde arrumo tempo pra ir ao supermercado, paciência pra cozinhar e, a pior parte, muitas vezes comer sem companhia.

Pra mim não é assim tão difícil. Gosto de cozinhar e também adoro um passeio ao supermercado. Nem todo dia tenho companhia pra mesa como também nem sempre tenho disposição para encarar o fogão. Cozinhar é prazer e não obrigação.

Achei um texto do Josimar Melo, o mais importante crítico gastronômico brasileiro, publicado na revista Vida Simples com muitas dicas pra sobreviver sem depender da tele-entrega, congelados sem sabor e redes de fast food estrategicamente localizadas no caminho do trabalho pra casa.

“Um dos primeiros sentimentos que acometem os solteiros diante dos inevitáveis horários de refeição, além da fome, é a preguiça. Olhar para a cozinha e imaginar-se preparando uma refeição solitária produz em muita gente um enorme desânimo. Preguiça de cozinhar apenas para si mesmo. Preguiça de comer sozinho. E preguiça de arrumar tudo depois, sem ajuda…

Dá para entender. Primeiro porque comer é um ato que se engrandece quando ocorre socialmente – seja fora ou dentro de casa, é sempre mais divertido e completo quando se tem companhia. Razão pela qual os que moram sozinhos preferem muitas vezes ir a lugares públicos onde, mesmo sem companhia, estarão rodeados de outras pessoas. Em segundo lugar, cozinhar apenas para si mesmo muitas vezes parece um ato trabalhoso e pouco prático – muito esforço para pouco resultado.

Acaba que muitas pessoas optam por duas soluções extremadas e terríveis: comer diariamente fora, em qualquer lugar, em geral lugares rápidos e medíocres, apenas para resolver o problema da fome; ou comer em casa com igual desatenção, apenas descongelando um prato industrial, pedindo uma pizza que virá com a mussarela já em rigidez cadavérica ou, no melhor estilo de engorda americano, abocanhando uns salgadinhos gordurosos em frente à TV.

Uma pena. Porque nada disso é necessário. Claro, quem não possui nenhuma noção de cozinha – e nem quer ter – terá que se virar mesmo com comidas prontas. Mas um mínimo de vontade de se entreter com a culinária, que afinal produz prazer sensorial em absolutamente 100% das pessoas, pode fazer das refeições do solteiro uma sucessão de momentos divertidos em sua vida.

A primeira dica valiosa – que deve valer, aliás, para muita coisa na vida – é fugir da rotina. Encher-se de possibilidades. Numa família grande, a pressão da vida prática leva à imposição de uma rotina maior. O cardápio sempre parecido a cada dia da semana, um suprimento básico de pratos para crianças, tudo organizado a partir de enormes compras mensais no supermercado.

Quem mora sozinho pode mais facilmente brincar com a fantasia na hora de comer. Pode até tentar reproduzir o hábito francês de trocar a compra mensal e programada de todos os ingredientes do mês pelo hábito de passar diariamente, na volta do trabalho, pelas suas lojas de comida ou supermercados prediletos.

É como eu faço quase que diariamente, em minha condição de solteiro, como aprendi na França, anos atrás. Em seu trajeto entre a estação do metrô e sua casa, no final do dia, os parisienses (solteiros ou não) costumam passar pela padaria e comprar um pão. Passam pelo açougue e compram bifes (não para a semana: somente a quantidade do jantar). Pela quitanda para comprar dois tomates. E pela queijaria e pela loja de frios, para levar fatias do que lhes apetecer para aquela noite. Se precisar, uma garrafa de vinho, um filé de peixe…

Dessa maneira, o que se vai comer a cada dia depende do que mais atrai o comprador. É verdade que, nos bairros das cidades brasileiras, infelizmente não existe tamanha profusão de pequenas “lojas gourmets” pelas ruas. Mas, ainda que seja apenas num açougue ou supermercado, o hábito de se surpreender a cada dia com cada refeição pode tornar a vida – e o paladar – bem mais interessante.

Outro problema a ser resolvido: o tempo. Nas casas de família de classe média no Brasil, é mais comum haver uma empregada que cozinhe diariamente, ou ao menos em vários dias da semana. Quem mora sozinho normalmente não precisa ter ou não pode sustentar uma diarista para cuidar da cozinha. E, se trabalha fora, nem sempre tem tempo de gastar muitas horas preparando sua refeição.

Mas será necessário ficar enfurnado na cozinha durante tanto tempo? Tudo bem, um almoço ou jantar especial, para vários amigos, a ser degustado durante horas num fim de semana, pode requerer todo esse tempo de preparo. Mas, para quem vive e come só, existem certos pratos práticos e rápidos, mas muito saborosos.

Comprar um belo bife ou um filé de peixe, umas folhas de salada ou um ingrediente para cobrir uma massa ou reforçar um risoto italiano (algum legume, ou lulas já cortadas, ou lingüiça, para dar alguns exemplos), são a garantia de uma solução rápida para um jantar solitário (ou quem sabe na companhia de uma visita, mesmo que convidada de última hora).

A salada só requer um molho, que pode ser preparado na própria mesa no momento de se servir. O bife ou peixe pode ser feito numa grelha de ferro ou de revestimento antiaderente (artefato indispensável para quem quer fazer refeições rápidas). E tudo isso não toma mais que dez minutos. Uma massa fica pronta em menos de 20 minutos, imaginando um molho simples (tomates italianos em lata, refogados com cebola e alho, ou um molho de alho e azeite). Um risoto pode demorar um pouco mais – mas, dependendo da habilidade do cozinheiro, não exige mais que 30 minutos.

O cozinheiro mais prendado terá também colocado uma fruta (pêssego, figo) no forno, com açúcar, manteiga e suco de laranja, para que tenha uma sobremesa pronta já no fim do jantar. Outro, se for mais afoito, terá um bom sorvete na geladeira, uma calda de chocolate e pronto, sobremesa garantida.

Aliás, eu aprendi com o tempo que geladeira e freezer são aliados valiosos do cozinheiro solitário, assim como um bom microondas – apetrechos dos quais será necessário perder o preconceito. Assumindo que num belo dia chega-se tarde em casa, já sem tempo de passar no mercado, ou que em outro nem sequer se saiu de casa ainda e já está na hora do almoço, é sempre bom ter em casa algumas possibilidades.

Eu já aprendi a manejar o microondas com suficiente habilidade para descongelar ingredientes que mantenho no freezer. Sempre tenho, para as emergências, algum peixe congelado (e saiba que peixe congelado no navio, no exato momento da pesca, pode estar bem mais fresco do que aqueles da feira, pescados dias antes); fatias bem grossas de alguma carne bovina (como contrafilé, miolo de alcatra) congeladas separadamente (para poder utilizar um bife de cada vez); filés de carne de porco; costeletas de cordeiro e outras coisas do gênero (nem sempre todas ao mesmo tempo). Guardo também caldo de carne e de peixe (que faço periodicamente com as carcaças de frango e espinhas de peixe que trago da feira – depois que o caldo está pronto, congelo em pequenas porções).

E tenho sempre algumas comidas prontas. Pois não faz sentido fazer arroz, ou feijão, na quantidade para apenas uma pessoa. Sempre que faço, já preparo numa quantidade grande e congelo o que não vou comer na hora, para uso futuro. É claro que a regra não vale para uma macarronada, mas há vários outros pratos que vale a pena guardar: um goulash (um tipo de picadinho húngaro) ou qualquer guisado de carnes, uma feijoada, cozidos em geral (de frango, de carne) e mesmo carnes grelhadas e assadas, como uma peça inteira de miolo de alcatra, que se prepara bem mal passada (para não passar do ponto no reaquecimento) e pode ser congelada. Muitos molhos podem também ser guardados muito bem: aquele molho à bolonhesa que fica horas e horas apurando no domingo pode ser feito em quantidade tal que boa parte dele seja congelada para dias de maior pressa. Dependendo do caso, procuro sempre congelar em várias pequenas porções individuais, para ir usando aos poucos.

A vantagem de ter esse estoque é que, quando então surge uma emergência, posso me socorrer escolhendo um dos ingredientes do freezer. Em seguida é preciso seguir acuradamente as instruções do manual do microondas (que já conheço de cor), para realizar adequadamente o descongelamento (é bastante prático e mais rápido que o descongelamento natural, mas mesmo assim demora um pouco e requer atenção: é necessário ter paciência para não desandar o processo).

Um belo bife de chorizo, cru, pode ser descongelado e ir para a grelha, para então ser acompanhado por arroz ou batatas. Num dia de desespero, experimente levar a carne direto do freezer para a grelha… Funciona!) Se a pressa é maior, o que vai para o microondas é um potinho de blanquette de vitelo – que também acompanha muito bem a batata, ou o arroz, ou o espaguete na manteiga feito na hora. Outra solução é colocar um macarrão na água fervente enquanto descongela aquele molho de tomates feito com cuidado no domingo.

Um copo de vinho será outra boa companhia – e esse também não deve ser um drama do solteiro. Existem muitos vinhos vendidos em meia garrafa, porção ideal para a refeição de um bebedor comedido. Mas, se seu rótulo preferido só existe em garrafa inteira, não será um problema. Beba o quanto quiser. O que ficar na garrafa, tampe e leve à geladeira. O frio ajuda a conservar tudo, inclusive o vinho (a menos que seja uma safra antiga, um vinho muito delicado, que pode ter menos tempo de sobrevida depois de aberto). Claro que isso não é indefinido, mas com certeza até a próxima refeição, ou por um ou dois dias, a bebida ainda estará saborosa.

Congelados? Microondas? É verdade, a solução de comprar e fazer no dia-a-dia seus alimentos é muito mais atraente. Mas não há nada de dramático em comer, semanas depois, mais um pouquinho daquele ensopado que você fez para os amigos durante horas e tinha ficado tão bom… Claro, pode não ser tão bom quanto o feito no dia, mas a sua própria comida, apreciada descontraidamente em sua casa, será sempre muito melhor do que um fast food engolido na rua ou um prato industrial deglutido sem vontade em frente à TV.

Cinco regras de ouro

. faça você mesmo, de preferência em casa – Não se torne escravo do mau restaurante nem dos congelados industriais: esteja sempre preparado para fazer sua refeição em casa, confeccionada por você a cada dia, em pouco tempo e sem stress. . respeite sua vontade a cada dia – Não se torne escravo também da rotina dos cardápios predeterminados. Habitue-se a passar no mercado, no açougue e na casa de frios diariamente, no caminho de casa, para preparar o que mais o atrair naquele momento.

. pratos elaborados, só se for bastante – Não desanime de fazer, de vez em quando, pratos mais trabalhosos ou demorados – carnes ensopadas, feijão e molho à bolonhesa, por exemplo. Mas aproveite para fazer em grande quantidade e congele o que não consumir em pequenas porções, para usar depois.

. congelar e descongelar não é feio – Não tenha medo do freezer e do microondas – mas aprenda a usá-los adequadamente, para que sejam seus aliados para ganhar tempo, quando necessário.

. beba devagar e sempre – Não tenha pena de abrir uma garrafa de vinho se for beber apenas um pouco. Tampe a garrafa e leve o que restou à geladeira, para continuar bebendo durante um ou dois dias

Como usar o gelo

Para congelar, utilize sacos plásticos que se fecham hermeticamente, retirando todo o ar antes de fechar (se utilizar potes plásticos, procure enchê-lo com o alimento e retirar o máximo de ar possível ao fechar). Faça ensopados com menos tempero, faça grelhados mal passados quando pensar em congelar. Separe a porção que vai comer na hora e tempere-a ou deixe um pouco mais na grelha.

Para descongelar, retire do freezer o alimento horas antes (nunca force a barra passando-os em água quente, por exemplo). Use o microondas atento às instruções e saiba que sua relação com ele melhora com a experiência (aos poucos você percebe o que precisa fazer para ter a comida como quer). No caso de ensopados, pode também levar do freezer à panela, em fogo baixo, acrescentando um pouco de líquido (água, caldo).”

A foto é de Basiljonez.

Anúncios